Introdução

Luanda completa quatro séculos de existência. Quatrocentos anos de história não são apenas uma marca temporal; são um espelho onde se refletem conquistas, dores, contradições e escolhas políticas. Falar dos 450 anos de Luanda é falar de Angola, do colonialismo, da independência, da guerra, da paz e, sobretudo, do modo como se pensou , e se continua a pensar , a cidade e o cidadão.

Este artigo propõe uma reflexão profunda e sem complacência: olhar para o passado colonial, analisar o presente urbano e questionar se, enquanto cidade e enquanto nação, avançámos ou retrocedemos. Não se trata de nostalgia colonial, mas de honestidade histórica e responsabilidade para com o futuro.

1. O nascimento de Luanda e o projeto colonial

Luanda foi fundada em 25 de janeiro de 1576 por Paulo Dias de Novais, sob o nome de São Paulo da Assunção de Loanda. A escolha do local não foi inocente. A Baía de Luanda oferecia condições naturais excecionais: abrigo para embarcações, ligação direta ao Atlântico e uma posição estratégica para o comércio e o controlo da região.

Desde o início, Luanda foi pensada como cidade colonial, organizada para servir os interesses da metrópole portuguesa. A cidade cresceu em torno da Baixa, da fortaleza de São Miguel, do porto e dos edifícios administrativos. O espaço urbano era hierarquizado: havia a cidade do colono e, à margem, os espaços ocupados pela população africana, mais tarde conhecidos como musseques.

Luanda tornou-se rapidamente um dos principais centros do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Durante séculos, milhares de africanos partiram da Baía de Luanda rumo às Américas. Este passado sombrio está inscrito nas pedras da cidade e não pode ser apagado nem relativizado.

2. A cidade colonial: exclusão social, mas planeamento urbano

É fundamental afirmar com clareza: a cidade colonial era profundamente injusta, racista e excludente. A população africana era marginalizada, explorada e privada de direitos. No entanto, do ponto de vista estritamente urbano e infraestrutural, havia planeamento, manutenção e visão de longo prazo.

A Baixa de Luanda, a marginal, o porto, as vias estruturantes, os edifícios públicos e administrativos foram concebidos para durar. Sistemas de drenagem, alinhamento de ruas, zonas verdes e lógica funcional faziam parte do desenho urbano. Muitas dessas estruturas resistiram ao tempo, à guerra e ao abandono, e continuam a servir a cidade até hoje.

Este dado causa desconforto, mas precisa ser dito: uma cidade construída para servir o colono acabou por ser mais durável e funcional do que muitas obras erguidas décadas depois da independência.

3. Luanda às vésperas da independência

Na década de 1960 e início de 1970, Luanda conheceu um crescimento significativo. Novos bairros surgiram, o comércio expandiu-se e a cidade consolidou-se como capital económica do território. Ainda assim, as desigualdades eram gritantes. A maioria da população africana vivia nos musseques, sem acesso adequado a saneamento, água potável ou infraestruturas básicas.

A cidade era moderna para poucos e precária para muitos. Essa herança desigual foi transmitida quase intacta ao período pós-independência.

4. A independência e o colapso urbano

Com a independência em 1975, Luanda transformou-se simbolicamente na capital da liberdade e da autodeterminação. No entanto, a saída em massa da população portuguesa, a nacionalização apressada de imóveis, a guerra civil prolongada e a ausência de um plano urbano estruturado lançaram a cidade num processo acelerado de degradação.

Luanda tornou-se refúgio de milhões de deslocados internos. Pessoas vindas de todas as províncias instalaram-se onde podiam, como podiam. Os musseques expandiram-se de forma desordenada, engolindo a cidade formal.

Sem recursos, sem quadros técnicos suficientes e sem estabilidade política, o Estado angolano falhou em responder ao crescimento populacional. A cidade cresceu em número, mas não em organização.

5. O pós-guerra e a promessa do desenvolvimento

O fim da guerra civil em 2002 trouxe consigo uma nova narrativa: reconstrução nacional, crescimento económico, modernização. Luanda tornou-se o centro dessa promessa. Grandes obras foram anunciadas, financiadas sobretudo pelas receitas do petróleo.

Surgiu então o conceito das “novas centralidades”: bairros planeados, edifícios modernos, largas avenidas, prédios altos, uma imagem de progresso destinada tanto à população quanto ao exterior.

O Kilamba foi o símbolo maior dessa ambição.

6. As novas centralidades: entre o marketing e a realidade

O Kilamba, o Zango, o Sequele, o Projeto Nova Vida e outras centralidades nasceram com discursos grandiosos: cidades satélite, qualidade de vida, habitação digna, modernidade africana.

Contudo, com o passar dos anos, a realidade impôs-se de forma brutal.

As estradas degradaram-se rapidamente, cheias de buracos. Os sistemas de drenagem revelaram-se insuficientes, provocando inundações. A recolha de lixo é irregular. Falta manutenção. Faltam escolas, hospitais, transportes eficientes e espaços públicos vivos.

Muitos edifícios apresentam problemas estruturais poucos anos após a construção. A ausência de um plano sério de gestão urbana transformou centralidades planeadas em espaços de desgaste acelerado.

7. Comparação inevitável: Baía de Luanda vs. novas centralidades

A comparação é desconfortável, mas inevitável.

As obras coloniais da Baía de Luanda , marginal, porto, edifícios históricos , resistiram por mais de um século. As novas centralidades, construídas com tecnologia moderna e milhões de dólares, degradam-se em menos de duas décadas.

Isto não é elogio ao colonialismo. É acusação à incompetência contemporânea.

O problema não está no tempo histórico, mas na ausência de visão, fiscalização, manutenção e responsabilidade pública.

8. O lixo, os buracos e o abandono do espaço público

Uma das marcas mais visíveis do retrocesso urbano em Luanda é o abandono do espaço público. Ruas esburacadas, passeios inexistentes, lixo acumulado, esgotos a céu aberto.

Uma cidade não é apenas prédios. É o cuidado diário, a manutenção constante, o respeito pelo cidadão.

Neste aspeto, Luanda falhou.

9. Retrocedemos?

Sim, retrocedemos.

Retrocedemos quando uma capital com 400 anos não garante serviços básicos. Retrocedemos quando o passado, mesmo injusto, se mostra mais funcional do que o presente. Retrocedemos quando o discurso político substitui a ação concreta.

Retrocedemos urbanisticamente, institucionalmente e simbolicamente.

10. Conclusão: os próximos 450 anos

Luanda não precisa de mais discursos, nem de mais inaugurações vazias. Precisa de planeamento sério, manutenção, transparência e respeito pelo cidadão.

Os 400 anos de Luanda deveriam ser um ponto de viragem. Um momento de verdade.

Ou aprendemos com o passado , sem o romantizar , ou continuaremos a repetir erros, celebrando aniversários enquanto a cidade se desfaz.

Luanda merece mais. Angola merece mais. E os próximos 400 anos ainda podem ser escritos com dignidade.

Os 450 anos da cidade de Luanda: história, memória, promessas e retrocessos

Por Paulo Muhongo

💬 E você, o que pensa

Será que, depois de 400 anos, Luanda aprendeu a cuidar de quem nela vive, ou continuamos a dançar descalços sobre os buracos do nosso próprio retrocesso?

450 anos de Luanda, história colonial, centralidades e retrocesso urbano

Luanda completa 450 anos. Conheça a história da cidade desde 1576, o período colonial, a Baía de Luanda, as novas centralidades como o Kilamba e o retrocesso urbano atual.

POLITICA

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