12 Junho 2026
POESIA

Mulher africana, nos
trilhos de Lisboa

Por: Paulo Muhongo

Tu, exilada do ventre da tua terra,

como tantas Marias de África,

vives agora em chĂŁo estrangeiro,

com um filho ao colo

e o mundo inteiro sobre os ombros.

Do suor que teima em cair da tua testa

nascem os frutos que alimentam o teu menino.

É por ele que madrugas,

Ă© por ele que corres,

de carrinha em carrinha,

de tĂĄxi partilhado a metro apinhado,

como se o tempo fosse sempre escasso

e os sonhos, uma urgĂȘncia calada.

Lisboa ri nos arraiais de Junho,

mas tu danças outra mĂșsica —

a da sobrevivĂȘncia.

Entre cheiros a sardinha e manjerico,

tu carregas o peso do silĂȘncio,

da ausĂȘncia, da esperança.

Quando hĂĄs de parar?

Quando hĂĄs de respirar fundo,

olhar o céu e dizer: também mereço a alegria?

Pois mesmo sendo Eva,

és filha do Criador.

E tens direito ao descanso,

ao riso,

Ă  luz.

Que seja eu esse AdĂŁo que saiba dar-te descanso.

Que seja eu a brisa que acalma a tua alma

fadigada pela brutalidade da vida.

Que em mim encontres o amparo e o abrigo

que sempre procuraste em tantos AdÔes,

mas que em cada entrega,

sĂł o sabor amargo colheste.