Tu, exilada do ventre da tua terra,
como tantas Marias de Ăfrica,
vives agora em chĂŁo estrangeiro,
com um filho ao colo
e o mundo inteiro sobre os ombros.
Do suor que teima em cair da tua testa
nascem os frutos que alimentam o teu menino.
Ă por ele que madrugas,
Ă© por ele que corres,
de carrinha em carrinha,
de tĂĄxi partilhado a metro apinhado,
como se o tempo fosse sempre escasso
e os sonhos, uma urgĂȘncia calada.
Lisboa ri nos arraiais de Junho,
mas tu danças outra mĂșsica â
a da sobrevivĂȘncia.
Entre cheiros a sardinha e manjerico,
tu carregas o peso do silĂȘncio,
da ausĂȘncia, da esperança.
Quando hĂĄs de parar?
Quando hĂĄs de respirar fundo,
olhar o céu e dizer: também mereço a alegria?
Pois mesmo sendo Eva,
és filha do Criador.
E tens direito ao descanso,
ao riso,
Ă luz.
Que seja eu esse AdĂŁo que saiba dar-te descanso.
Que seja eu a brisa que acalma a tua alma
fadigada pela brutalidade da vida.
Que em mim encontres o amparo e o abrigo
que sempre procuraste em tantos AdÔes,
mas que em cada entrega,
sĂł o sabor amargo colheste.