A Terra que Nos Negou a Água e Nos Obrigou a Inventar a Própria Felicidade

Por : Paulo Muhongo — Escritor, Poeta e Analista Político

I. A Alegria Fabricada

Venho de uma terra onde a alegria não nasce da espontaneidade natural da existência. Ela fabrica-se.

Até mesmo os deuses no-la rejeitaram, colocando-nos em terras que, embora riquíssimas em recursos naturais, têm na miséria uma espécie de presente divino.

Não pedimos por ela. Foi-nos legada como herança de pais que também a herdaram dos seus.

Por isso, visto que a vida não nos dá nenhum motivo para sorrir, tornámo-nos nós mesmos os fabricantes da felicidade. Para dar leveza à vida que temos.

II. A Imaginação como Sobrevivência

A imaginação e os sonhos são os únicos bens que possuímos.

Por isso, exploramos ambos, tal como um mineiro que procura pedras preciosas.

Aquilo que imaginamos transformamos rapidamente em obra-prima.

Ainda que a falta de recursos ou de meios impeça que seja o que um mundo moderno esperaria.

No entanto, esse objecto — resultado de enésimos outros objectos apanhados entre os lixões — fascina-nos. Deslumbra-nos.

III. A Infância da Lama e da Chuva

Quando a chuva cai, com a lama fabricamos os mais lindos carros. Tudo o que a mente pudesse sonhar ou desejar.

Fazemos bonecos, casas, mobílias… tudo o que nos falta na vida real. Mas que a imaginação nos dá em toda a sua graça.

Era isso que fazíamos durante as épocas de chuva.

Nas lagoas, por onde corriam os lixos da cidade — os cães e galinhas mortas, às vezes até os dejectos das fossas — mergulhávamos.

Como quem encontra lindas quedas de água entre grandes montanhas.

IV. A Água Impura e o Sonho

E cuja água cristalina apazigua a alma e as dores do corpo que se carrega por si.

Tal um marimbondo vagando e esperando a morte como livramento.

De uma vida que não é vida, mas um fardo. Um sacrifício permanente.

Sem qualquer luz no fundo do precipício.

V. A Seca e a Travessia

Quando o verão chegava, levava consigo todas as águas da terra.

Trazia no seu ventre a seca.

Que, num curto período, carregava no leito dessa mesma terra toda a alma decente.

O líquido transformava-se num estrangeiro. Tinha de ser procurado em terras longínquas.

Após quilómetros entre terra batida, selva e o perigo dos animais.

Os que ainda restavam deambulavam por aí, assim como nós.

Esperando a quem devorar. E matar a sede com o pouco litro de sangue que restasse dessa alma azarada.

VI. A Morte como Companhia

Nessa peregrinação, a morte tornou-se companheira.

De modo que, quando alguém ficava pelo caminho, já não chorávamos.

Não por falta de sentimento. Mas porque estávamos tão secos como os próprios rios.

E, por mais profunda que fosse a nossa dor, as lágrimas não caíam.

Antes chorávamos os nossos entes queridos durante semanas ou meses.

Mas a brutalidade da vida exigia que nos recompuséssemos rapidamente.

Caso contrário, seríamos nós os próximos a visitar a própria terra.

Que também sedenta estava para se alimentar com tudo o que n

💬 E você, o que pensa?

O que resta a um povo quando até a água lhe é negada, senão a capacidade de sonhar?

A Terra que Nos Negou a Água e Nos Obrigou a Fabricar a Própria Felicidade

Um texto poético e profundo sobre a vida numa terra marcada pela seca, pela pobreza e pela imaginação como forma de sobrevivência. Uma reflexão sobre a infância, a dor e a capacidade humana de criar felicidade mesmo na escassez.

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5/29/20263 min ler

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