Angola é um país de riquezas imensas e potencial humano extraordinário, mas enfrenta hoje uma das piores crises de sua história recente. A população, que sonha com dignidade e prosperidade, vê-se presa em um ciclo de empobrecimento, degradação institucional e retrocesso democrático.

Todo angolano carrega dentro de si uma esperança silenciosa, mas tenaz, de um dia viver com dignidade e usufruir das riquezas do próprio país. Desde a infância, aprendemos a sonhar com ruas seguras, escolas funcionais, hospitais acessíveis e um futuro onde o esforço de cada um seja reconhecido e valorizado. É um sonho simples, humano, mas que, ao longo das décadas, parece se esvair em meio a políticas ineficazes, promessas vazias e desigualdades profundas.

Nos poemas do Neto, ouvimos que haveríamos de voltar aos campos, cultivar a terra e reconstruir nossas raízes. E por eles voltamos, com coragem e determinação. Mas o que encontramos foi a terra árida e seca, os animais morrendo, os rios escassos e, das promessas que nos fizeram, apenas pedras quentes e duras, que queimam os pés de quem ainda sonha com vida digna.

Um país mais pobre a cada ano

Os números são implacáveis. Segundo o Observatório Clark, nos últimos oito anos, Angola ficou 82% mais pobre, uma média de 10,1% ao ano. O número de cidadãos abaixo da linha da pobreza passou de 13,9 milhões em 2017 para 18 milhões em 2021, com crescimento contínuo projetado para 20 milhões até 2030.

Não é surpresa que contentores de lixo se tornem locais de garimpo para muitos, em busca do pão de cada dia. No final de 2025, 12 adolescentes morreram esmagados dentro de um carro de recolha de lixo, na tentativa desesperada de encontrar alimento. É um retrato cruel do país, onde a sobrevivência tornou-se um ato diário de resistência.

Educação: futuro comprometido

A educação em Angola atravessa uma crise profunda. Dados do SIMPROF revelam que:

  • 60% das escolas públicas não têm água ou eletricidade, com apenas 15% contando com essas condições de forma regular;

  • 87% das escolas não possuem bibliotecas funcionais;

  • 90% não têm laboratórios, essenciais para o ensino de ciências;

  • Mais de 90% dos professores não desejam continuar na carreira, devido a baixos salários, falta de condições e desvalorização social;

  • O déficit de professores ultrapassa 87.500, o déficit de salas de aula é de mais de 150.200, e a necessidade de carteiras chega a 1,5 milhão.

Sem educação de qualidade, a desigualdade é perpetuada. Crianças e jovens crescem em um sistema que não lhes oferece ferramentas básicas para transformar suas vidas.

Saúde: vidas perdidas por falta de prevenção

O setor da saúde enfrenta desafios igualmente graves. Hospitais terciários são inaugurados, mas não alteram os indicadores de mortalidade. A malária, doença prevenível, ainda mata milhares. Em 2025, 7 milhões de angolanos foram diagnosticados, e 11.000 morreram, uma média de 30 pessoas por dia.

A prevenção e o saneamento básico permanecem negligenciados. Famílias sobrevivem à base de hospitais superlotados e centros de saúde sem recursos. A saúde, essencial para a dignidade humana, continua comprometida.

A riqueza do país e a pobreza do povo

Angola é rica em petróleo, diamantes, minerais e terras férteis, mas a população continua empobrecida enquanto as riquezas servem a interesses privados e a uma elite política distante da vida cotidiana.

Novas centralidades, como o Kilamba, Nova Vida e Zango, foram projetadas para simbolizar progresso. Na prática, sofrem com ruas cheias de buracos, falta de saneamento, ausência de escolas, hospitais e transporte público adequado.

A Baía de Luanda, construída no período colonial, ainda é mais funcional do que muitas das centralidades modernas. É uma ironia cruel: estruturas construídas por uma metrópole estrangeira resistem melhor ao tempo e ao abandono do que as erguidas no período pós-independência.

Política e democracia em retrocesso

A crise em Angola é também política. A democracia plural é uma promessa distante. O poder está concentrado excessivamente no Executivo, que busca manter-se a todo custo, perseguindo adversários, prendendo ativistas e instrumentalizando órgãos de segurança.

Manifestações pacíficas são criminalizadas. A população prisional é extremamente jovem, e o medo sufoca o debate democrático. Igrejas e sociedade civil enfrentam silenciamento e instrumentalização, pilares que deveriam sustentar a coesão social do país.

A esperança como resistência

Mesmo diante de ruas cheias de buracos, hospitais sem medicamentos, escolas sem professores, o angolano continua a sonhar, resistir e acreditar. A terra pode ser dura, mas o espírito é fértil. É nesse contraste entre o sofrimento real e o sonho de dignidade que se desenha a força do povo angolano.

Como disse um poeta francês:

"Le Paix, mère des richesses, la plus aimable des divinités, que je vous désire avec ardeur ! Que vous tardez à venir ! Que je crains que la vieillesse ne me surprenne avant que je puisse voir le temps heureux où tout retentira de nos chansons, et où, couronnés de fleurs, nous célébrerons des festins !"

A paz, mãe das riquezas, ainda tarda a chegar, mas mantém vivos os sonhos de justiça, liberdade e dignidade.

Um país rico, mas refém de maus governantes

O problema de Angola não é apenas histórico, nem resultado de guerras passadas ou de líderes isolados. É estrutural. É a repetição de padrões, a negligência constante e a falta de compromisso com o povo. Um país rico não pode continuar a produzir miséria, fome e desesperança.

O angolano precisa de líderes que entendam que uma república não é apenas um título, mas um pacto de responsabilidade, justiça e serviço à população. A diferença entre governar para o povo ou sobre o povo é, neste momento, a linha que separa Angola do retrocesso do progresso.

Um convite à reflexão

Esperança em Angola não é passiva; é um ato de resistência. É plantar, estudar, lutar e cobrar direitos, mesmo quando a recompensa parece distante. É acreditar que a terra seca se transformará em campos férteis, que pedras quentes darão lugar a ruas pavimentadas, e que a riqueza do país será finalmente compartilhada com quem dela depende para viver.

O desafio para cada angolano é duplo: não perder a esperança e exigir responsabilidade. Um país verdadeiramente justo só se realiza quando cada cidadão assume seu papel, quando o governo cumpre seu dever e quando a sociedade não se deixa seduzir por promessas vazias.

Angola em Crise: Entre a Esperança do Povo e o Retrocesso do Estado

Por Paulo Muhongo

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Será que Angola conseguirá transformar sua esperança em realidade, ou continuaremos a dançar descalços sobre a terra árida de nossas próprias promessas?

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POLITICA

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