Angola atravessa um momento essencial de escolhas económicas e financeiras. Entre 2025 e o início de 2026, o país contratou empréstimos e financiamentos significativos com diversos parceiros internacionais: bancos privados, instituições multilaterais, e mercados financeiros globais. Embora esta captação de recursos tenha sido apresentada como uma forma de impulsionar infra-estruturas, financiar o orçamento e estabilizar sectores chave da economia, a realidade mostra que o simples aumento da dívida não tem se traduzido em desenvolvimento económico sustentável nem em melhoria concreta de vida para a maioria da população.
1) Principais empréstimos recentes
Empréstimo ampliado com o banco norte-americano JPMorgan
Em janeiro de 2026, Angola prolongou uma linha de crédito com o banco JPMorgan, estendendo um contrato inicialmente de US$ 1 bilhão para um prazo de três anos, até 2029, e garantiu financiamento adicional de US$ 500 milhões, mantendo taxas de juro em torno de 8 %. Esta operação inclui ajustes no colateral exigido, reduzindo-o em US$ 200 milhões ao reutilizar uma obrigação de maior rating como garantia.
Este tipo de instrumento, conhecido como Total Return Swap, é tecnicamente complexo e caro para países emergentes, e expõe Angola a riscos associados às flutuações do mercado financeiro global.
Linha de financiamento de US$ 1,75 bilhões com o Afreximbank
Em janeiro de 2026, o African Export-Import Bank (Afreximbank) anunciou uma linha de crédito de US$ 1,75 bilhões para apoiar a petrolífera estatal Sonangol, visando reforçar as necessidades operacionais e de capital e manter a capacidade de exportação da empresa.
Embora esta fosse apresentada como uma forma de “fortalecer a indústria energética e a capacidade de exportação”, grande parte desse montante está vinculada diretamente à atividade de uma empresa estatal dominante-oligopolista, e não a um projecto de diversificação económica ampla ou de suporte a sectores produtivos com impacto direto no bem-estar social.
Emissão de Eurobonds no mercado internacional
Em outubro de 2025, Angola regressou ao mercado de dívida global com uma emissão de Eurobonds de US$ 1,75 bilhões, distribuídos em dois tranches de cinco e dez anos, com juros próximos dos 10 %, para refinanciar dívida existente e cobrir necessidades do orçamento.
Issuances com taxas elevadas podem representar um sinal de que os mercados consideram o risco soberano angolano ainda elevado, e isso significa que o custo de financiamento pode absorver uma parte significativa de receitas futuras do Estado.
Empréstimos menores e multilaterais
Além destes grandes pacotes, Angola recebeu ou negociou outros empréstimos, como cerca de US$ 162,76 milhões do Banco Africano de Desenvolvimento para governação económica e resiliência.
Também há utilização de instrumentos internos, como empréstimos do Banco Nacional de Angola ao Governo, que em 2025 totalizaram cerca de US$ 1,4 bilhões, contribuindo para o financiamento do orçamento mas drenando reservas internacionais.
2) O contexto mais amplo da dívida angolana
Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) e das autoridades angolanas, a dívida pública total do país deve cair progressivamente como percentagem do PIB entre 2025 e 2028, mas ainda permanece elevada e dependente de receitas petrolíferas e fluxos de empréstimos externos.
Historicamente, Angola acumulou grandes montantes de dívida com credores como a China ao longo de décadas, estimados em mais de US$ 14,9 mil milhões em 2025, valorizando a dependência de financiamento externo para projectos de reconstrução e desenvolvimento.
Paralelamente, o serviço da dívida continua a consumir uma parcela substancial do orçamento governamental, absorvendo receitas que poderiam ser destinadas a saúde, educação, infra-estruturas sociais e redução da pobreza. Em 2025, Angola teria de pagar cerca de US$ 6 mil milhões em juros e amortizações, representando uma grande pressão fiscal.
3) Por que estes empréstimos não estão a levar Angola para frente?
a) Dependência de dívida para cobrir défices, não para investir no desenvolvimento
Uma parte significativa dos empréstimos está a ser utilizada para refinanciar dívida existente ou cobrir défices temporários, em vez de financiar projectos com impactos diretos e sustentáveis para a economia real. A emissão de Eurobonds, por exemplo, destina-se em grande parte a pagar dívida antiga e aliviar pressões do curto prazo, não a criar moteurs de crescimento diversificado.
b) Foco em sectores de exportação que não diversificam a economia
O empréstimo de US$ 1,75 bilhões do Afreximbank para a Sonangol ilustra o foco contínuo em fortalecer o sector petrolífero, um motor económico tradicional mas volátil, em vez de investir em sectores que reduzem a dependência das exportações de petróleo ou promovem emprego em larga escala.
c) Custos financeiros elevados
A elevada taxa de juros dos Eurobonds — perto de 10 % — e instrumentos complexos com bancos internacionais indicam que Angola está a pagar custos financeiros altos por acesso ao crédito, reduzindo o benefício líquido desses recursos no médio e longo prazo.
d) Fragilidade do ambiente de investimento
Dados sobre o investimento directo estrangeiro mostram declínios significativos no não petrolífero, com queda de mais de 40 % em 2025, indicando que a dívida crescente não está a atrair investimentos de longo prazo nem está a melhorar a confiança externa na economia angolana para além do sector de hidrocarbonetos.
e) Desalinhamento entre dívida e serviços públicos essenciais
Embora o país aumente o endividamento, os problemas estruturais persistem: infra-estruturas sociais debilitadas, serviços básicos insuficientes e um sistema económico que continua concentrado no petróleo. A dívida não está a transformar realidades concretas fora do círculo político-económico dominante.
4) O dilema estrutural
O recurso a empréstimos e linhas de crédito pode ser justificado como uma ferramenta de gestão macroeconómica. No entanto, quando se torna um fim em si mesmo, e não um meio para financiar projetos estruturantes com retorno social e económico claro, ele pode perpetuar ciclos de dependência e fragilidade.
O caso angolano mostra que os recursos financeiros estão disponíveis, sejam através de bancos internacionais, instituições multilaterais ou mercados de capitais, mas a forma como são estruturados e aplicados importa mais que o montante. Sem reformas profundas que combatam a dependência do petróleo, promovam diversificação económica, melhorem a transparência dos gastos públicos e fortaleçam instituições, o aumento da dívida pode simplesmente prolongar um modelo que funciona mais para manter privilégios do que para gerar desenvolvimento inclusivo.
Conclusão
Os grandes empréstimos que Angola tem contraído recentemente, incluindo centenas de milhões a bilhões de dólares com bancos privados, instituições multilaterais e mercados financeiros — mostram que o país ainda depende intensamente de financiamento externo. No entanto, enquanto estes recursos não forem aplicados em projetos com impacto real e sustentabilidade económica, e enquanto o país mantiver uma dependência elevada de hidrocarbonetos e um modelo de governação pouco transparente, o endividamento continuará a ser um paliativo e não um motor de progresso real.


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Por Paulo Muhongo
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