Hoje, Portugal vive um momento simbólico. Um momento de viragem. Um momento de recomeço. Um momento em que todos fomos chamados a refletir sobre o país que somos e sobre o país que queremos ser.

As eleições mostraram que Portugal continua vivo, plural e consciente. Mostraram também que, apesar das diferenças, somos povos que caminham juntos, povos irmãos que, querendo ou não, partilham uma história comum. Uma história feita de encontros, mas também de conflitos; uma história marcada pela dor, mas também pelos cruzamentos humanos que nos definem até hoje.

Há africanos brancos, assim como há portugueses negros. Há cabo-verdianos de pele clara, guineenses de pele escura, angolanos de todas as tonalidades. Isso prova algo simples e essencial: a identidade não se mede pela cor da pele. A identidade mede-se pela vivência, pela cultura, pela cidadania e pelo respeito mútuo.

É neste contexto que tomo a palavra.

Dirijo-me, desde já, ao Presidente da República Portuguesa, António José Seguro. Nos poucos meios que estiveram ao meu alcance, sobretudo através das redes sociais, participei, ainda que de forma indireta, na sua campanha. Fiz isso porque acreditei num discurso de estabilidade, de diálogo, de respeito pelas instituições democráticas.

Hoje, não falo apenas por mim. Hoje, falo em nome de muitos. Hoje, venho pedir e exigir respeito pelo cidadão imigrante.

1. O cansaço do discurso xenófobo

Estamos fartos. Fartos de ouvir o mesmo discurso vazio, agressivo e desumanizante:
“Volta para a tua terra.”

Essa frase não é apenas ofensiva. Ela é ignorante. Revela uma profunda falta de noção histórica. E uma incapacidade de olhar para o presente com honestidade.

Portugal invadiu e ocupou vastos territórios africanos durante cerca de 500 anos. Escravizou povos inteiros. Destruiu sistemas sociais. Impôs a sua língua, a sua administração, a sua visão do mundo. Milhões de africanos foram arrancados das suas terras, despojados da sua humanidade e transformados em mercadoria.

A colonização não acabou com a independência formal. Não acabou com tratados nem leis. Ficaram implantados sistemas políticos, económicos e administrativos que continuaram e continuam a servir interesses externos, muitas vezes em detrimento das populações locais.

Dizer hoje a um africano: “Volta para a tua terra” é ignorar que essa terra foi moldada, explorada e condicionada por séculos de dominação colonial.

2. Dois pesos, duas medidas

Hoje, milhares de portugueses vivem nos países africanos lusófonos. Muitos vivem bem. Alguns vivem muito bem. Têm negócios, privilégios, estatuto. E é legítimo que vivam assim, ninguém questiona isso.

Mas há uma pergunta que não pode ser ignorada:
Por que razão, quando os portugueses vivem em África, são chamados de expatriados, investidores ou empresários…
e quando os africanos vivem na Europa, são tratados como problema?

Por que razão a mobilidade é aceite numa direção e demonizada na outra?

Quando nós, africanos, chegamos à Europa, ainda temos de ouvir frases como

“Volta para a tua terra”.

Mesmo quando trabalhamos.
Mesmo quando estudamos.
Mesmo quando pagamos impostos.
Mesmo quando cumprimos todas as leis.

3. Competência não tem cor

Podemos ter os melhores diplomas.
Podemos estudar nas mesmas universidades.
Podemos ler os mesmos livros.
Podemos falar a mesma língua.

E ainda assim, os trabalhos que nos são destinados continuam, na maioria das vezes, os mais precários, os mais mal pagos, os mais invisíveis.

Não por falta de competência.
Mas por excesso de preconceito.

Há médicos a conduzir Uber.
Há engenheiros na restauração.
Há licenciados na limpeza.
Isso não é integração. Isso é desperdício humano.

4. A verdade económica que poucos querem dizer

O próprio Estado português reconhece a necessidade de mão-de-obra imigrante. O próprio primeiro-ministro admitiu que o país precisa de imigrantes para sustentar a sua economia.

Porquê?
Porque muitos portugueses emigraram  e continuam a emigrar para França, Luxemburgo, Alemanha ou Suíça. Tal como nós emigrámos.

Hoje, grande parte da economia portuguesa funciona graças ao trabalho dos imigrantes:
na construção civil,
na agricultura,
na hotelaria,
na restauração,
nos cuidados a idosos,
na limpeza,
nos serviços essenciais.

Perante esta realidade, acusar os imigrantes de serem a “desgraça de Portugal” não é apenas ofensivo.
É profundamente hipócrita.

5. Uma palavra ao Deputado André Ventura

Ao Deputado André Ventura não cabe decidir como devem ser conduzidas as políticas internas dos países africanos lusófonos. Não lhe cabe julgar povos inteiros. Não lhe cabe reduzir a imigração a um bode expiatório.

Exijo que ele e o seu grupo político cessem o discurso que associa imigração a criminalidade, atraso ou decadência nacional. Esse discurso não resolve problemas — cria inimigos imaginários.

Dito isto, faço questão de ser honesto: concordo que a imigração deve ser regulada.
A falta de controlo prejudica a todos — portugueses e imigrantes. Prejudica sobretudo os mais frágeis, que acabam explorados, a viver em condições desumanas, sem direitos nem proteção.

Controlar não é excluir.
Controlar é organizar com humanidade, justiça e responsabilidade.

6. Um apelo aos meus irmãos e irmãs imigrantes

Agora, falo para dentro.
Falo para nós.

Sabemos que todo país tem a sua identidade, a sua cultura, as suas regras. O respeito e a integração não são opcionais, são deveres.

Não respeitaram os nossos valores quando nos escravizaram.
Que sejamos nós a fazer diferente.

É com tristeza que vejo muitos de nós a ignorar os pequenos gestos de boa convivência:
o barulho excessivo,
o desrespeito pelos espaços comuns,
a informalidade permanente como forma de sobrevivência.

Portugal não é Angola.
Não é São Tomé e Príncipe.
Não é Guiné-Bissau.
Não é Cabo Verde.

Portugal é Portugal e deve ser respeitado como tal.

7. Práticas que nos prejudicam a todos

Não mais vendas ambulantes ilegais nas estações de comboio, na Rua Augusta ou no centro de Lisboa.
Essas práticas alimentam estigmas.
Reforçam preconceitos.
Dificultam a nossa integração.

A dignidade não se constrói na marginalidade permanente.
Constrói-se com organização, formação, legalidade e respeito.

8. Conclusão

Peço respeito porque trabalhamos.
Peço respeito porque contribuímos.
Peço respeito porque pertencemos.

A democracia não se mede apenas pelo voto.
A democracia mede-se pela forma como trata os mais vulneráveis.

Vivamos com respeito.
Porque respeito gera respeito.
E porque, afinal, estamos no país do outro — mas podemos transformá-lo numa casa comum.

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Por Paulo Muhongo

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POLITICA

2/10/20264 min ler