Como Abel Chivukuvuku Vendeu a Esperança de Angola ao Banquete do Poder

Por : Paulo Muhongo — Escritor, Poeta e Analista Político

Introdução: O Cheiro da Mudança e o Gosto do Fel

Recuemos a 2010. Luanda era uma panela de pressão. O fim da guerra civil já tinha quase uma década, mas a "paz" do MPLA era uma paz de estômagos vazios e bocas caladas. Eu fazia parte daquela geração que acreditava que o teclado do computador era mais forte que o cano da AKM.

Lembro-me das discussões na "placa", nos quintais e, sobretudo, à mesa de jantar. O meu pai, com o cartão do partido no bolso como se fosse um amuleto de sobrevivência, dizia: "Vocês não conhecem a guerra, o MPLA é que sabe governar". Eu respondia com o nome de Abel Chivukuvuku. Para nós, ele era o homem que falava a nossa língua; tinha o carisma que faltava à UNITA e a modernidade que o regime temia.

Hoje, essa memória causa-me náuseas. Olhar para o Abel de 2012 e compará-lo com o de 2026 é como assistir a um filme onde o herói se torna o informador do vilão. Esta é a história de como a nossa esperança foi leiloada.

Mas para entender isso, é preciso perceber Angola como ela realmente é: não apenas um país com eleições, mas um sistema político onde a esperança é cíclica, reciclada e frequentemente recondicionada pelo próprio poder.

O Fenómeno CASA-CE – A Grande Ilusão (2012)

A fundação da CASA-CE foi o maior exercício de marketing político da história de Angola. Chivukuvuku captou o "voto do cansaço" como uma "Terceira Via". Naquela altura, a juventude fez o impossível: convencemos os nossos velhos. Quebrámos o mito de que sem o MPLA haveria guerra.

Contudo, nos bastidores, a estrutura era um "exército de um homem só". O que não sabíamos era que o líder não cairia por pressão do regime, mas simplesmente saltaria para o outro lado da barricada assim que o preço fosse justo.

E aqui começa um ponto essencial da política angolana: a fragilidade das “terceiras vias”.

Em sistemas políticos altamente centralizados, qualquer alternativa que cresce demasiado depressa é observada, absorvida ou neutralizada. A CASA-CE não foi apenas uma coligação política — foi também um teste social. Um ensaio coletivo da possibilidade de ruptura.

Mas sem estruturas sólidas, sem institucionalização profunda e com dependência excessiva de liderança carismática, movimentos assim tornam-se vulneráveis ao mesmo sistema que tentam desafiar.

O Ano em que a Esperança foi Vendida

As eleições de 2017 foram o divisor de águas. O povo saiu à rua com uma coragem nunca vista, pronto para defender o voto com o próprio corpo. Mas enquanto jovens eram detidos e atas desapareciam no labirinto da CNE, Abel e a sua elite pareciam mais preocupados com a logística dos seus novos gabinetes na Assembleia Nacional do que com a revolta popular.

Ali começou o divórcio. O MPLA "comprou a paz social" através de concessões. Em vez de uma marcha sobre o poder, recebemos silêncios ensaiados e conferências de imprensa estéreis. A esperança começou a ser pesada em kwanzas e dólares.

Este momento marca uma transição importante: a passagem da política da rua para a política do gabinete.

Quando a energia popular não encontra canal institucional eficaz, ela dissipa-se. E nesse vazio, o sistema dominante reorganiza-se. Não precisa destruir a oposição, basta esperar que ela se desorganize.

O Beijo de Judas e as "Caixas Térmicas" de 2026

Maio de 2026 ficará marcado como o mês em que a máscara caiu definitivamente. As denúncias de Adriano Sapiñala, figura de peso da UNITA, revelaram o que muitos temiam. As imagens de Chivukuvuku a receber "caixas térmicas" repletas de dólares das mãos de generais do MPLA como Bento Kangamba, são a prova material do crime contra a nação.

Como pode um homem que fala em "erradicar a pobreza" aceitar subornos em dinheiro vivo enquanto crianças reviram o lixo para comer? Chivukuvuku tornou-se o que chamamos de "mixeiro": um mercenário que usa a influência para negociar uma reforma dourada. A traição deixou de ser teórica para se tornar visual e vergonhosa.

Mas este episódio, independentemente da sua veracidade jurídica ou interpretação política, revela algo mais profundo: o papel das imagens na política contemporânea.

Hoje, uma imagem pode destruir mais reputações do que um relatório inteiro. A política tornou-se também um campo de perceção instantânea, onde o simbólico pesa tanto quanto o factual.

O PRA-JA e a Estratégia da "Massa"

A legalização do PRA-JA em 2024 não foi vitória da justiça, foi um favor de João Lourenço. Ao dar a Abel o seu "brinquedo político", o regime garantiu a fragmentação da Frente Patriótica Unida (FPU).

Chivukuvuku aceitou o papel de divisor de votos. No Conselho da República, ele não é uma voz crítica; é um ornamento democrático, um "cão" que aceita perder a dignidade para encher a barriga e a dos seus familiares. Ele matou a unidade para salvar o próprio ego.

Aqui entra uma lógica clássica dos sistemas de poder: dividir para estabilizar.

Quando a oposição ameaça unir-se, o sistema responde não com repressão direta, mas com engenharia política subtil — reconhecimento seletivo, legalizações estratégicas e incentivos individuais.

O resultado não é eliminação da oposição, mas fragmentação funcional.

A Reação das Redes e o Ativismo de Fachada

As redes sociais em maio de 2026 explodiram em sarcasmo. O termo "caixa térmica" virou sinónimo de traição. O sentimento é de que o "dono da massa" (o partido no poder) olha para estes líderes como mosquitos mortos e faz a oferta certa.

Este mal não atinge apenas partidos. Vê-se em ativistas como Wilson Papo Reto, que ganhou notoriedade criticando o sistema para depois se vender ao MPLA. Jornais, rádios e pensadores que outrora despertavam mentes foram comprados. Eles dizem que "a mudança é para já", mas a mudança só acontece nas contas bancárias deles.

As redes tornaram-se simultaneamente espaço de denúncia e espetáculo. Um tribunal sem juiz, mas com multidões.

A Economia Invisível da Política

Por trás de tudo isto existe um sistema menos visível: a economia da lealdade.

Em Angola, a política não é apenas disputa de ideias, é disputa de acesso. Acesso a contratos, proteção, visibilidade e sobrevivência.

Neste contexto, a fronteira entre oposição e cooptação torna-se fluida. E essa fluidez gera cinismo político generalizado.

O Fim dos Messias

O erro mais recorrente da política contemporânea angolana é a dependência de figuras salvadoras.

Mas sistemas complexos não mudam apenas com líderes. Mudam com instituições.

A figura do “salvador” é útil ao sistema porque concentra expectativas e facilita o controlo.

Quando o salvador falha, não falha apenas ele. Falha a esperança inteira.

O Despertar sem Messias

O percurso de Abel Chivukuvuku é a lição mais dura para Angola. Aprendemos que:

O personalismo é perigoso: Partidos centrados num "salvador" são fáceis de comprar.
O "Dono da Massa" é implacável: O MPLA usa recursos públicos para domesticar a oposição.
Institucionalização é a chave: Precisamos de movimentos coletivos, não de "heróis" com preço de venda.

A esperança que Abel assassinou em 2017 e vendeu em 2026 terá de renascer sem messias. O povo já não dorme com as cantigas do MPLA e já não acredita no beijo de Judas da oposição fabricada. A luta continua, mas Chivukuvuku passará à história apenas como uma nota de rodapé sobre como a ambição transforma um líder num traidor.

ANGOLA E O CICLO SEM FIM

A história não termina aqui porque não começou com Abel e não terminará com ele.

O verdadeiro problema não são apenas os homens que entram no sistema, é o sistema que transforma qualquer esperança em mercadoria política.

Enquanto isso não mudar, Angola continuará a viver entre ciclos de entusiasmo, frustração e cinismo.

E cada nova geração terá o seu “Abel”, o seu “salvador”, e o seu momento de desilusão.

💬 E você, o que pensa?

Quantas vezes mais estaremos dispostos a vender a nossa esperança antes de perceber que o problema nunca foi apenas quem a prometeu?

Como Abel Chivukuvuku Vendeu a Esperança de Angola ao Banquete do MPLA

Descobre como Abel Chivukuvuku, o outrora líder da esperança, terá vendido a nação ao MPLA. Uma análise profunda sobre as caixas térmicas, o Conselho da República e a desilusão da juventude angolana.

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5/7/20265 min ler