A história africana é marcada por ciclos de dominação e resistência. Assim como Nzinga Mbande se ergueu contra o colonialismo estrangeiro para defender a soberania dos reinos do Ndongo e da Matamba, o General Manuel Pacavira Mendes de Carvalho conhecido como General Paka, ergue-se hoje contra aquilo que muitos angolanos descrevem como um colonialismo interno: um sistema de poder concentrado, fechado e hereditário, associado ao MPLA.
Este artigo não é panfleto nem julgamento sumário. É uma investigação jornalística crítica, baseada em análises académicas, posições de ativistas, leituras de especialistas em ciência política africana e depoimentos públicos disponíveis, que procura compreender o significado político e simbólico da atitude do General Paka, bem como a resposta do Estado angolano.
Nzinga Mbande: A Matriz Histórica da Rebeldia Legítima
Historiadores africanos e europeus concordam num ponto essencial: Nzinga Mbande não foi apenas uma líder militar, mas uma figura política sofisticada, que compreendeu que o poder colonial não se sustentava apenas pela força das armas, mas pela captura das estruturas internas de governação.
A sua resistência tinha três pilares:
Defesa da soberania;
Rejeição de tratados assimétricos;
Mobilização interna contra elites colaboracionistas.
É precisamente este terceiro ponto que muitos analistas evocam ao traçar paralelos com a Angola contemporânea.
Do Movimento de Libertação ao Partido-Estado
Estudos de ciência política sobre Angola descrevem o MPLA como um partido-Estado, um fenómeno em que as fronteiras entre partido político, governo, forças armadas e instituições públicas se tornam difusas.
Segundo analistas africanos independentes, este modelo gera três consequências principais:
concentração extrema de poder;
dependência da lealdade pessoal em detrimento do mérito;
intolerância progressiva à dissidência interna.
A transição do MPLA de movimento de libertação para estrutura permanente de poder não foi acompanhada por uma transformação institucional profunda, o que explica, segundo académicos, a persistência de práticas autoritárias num quadro formalmente democrático.
O Nepotismo como Sistema, Não como Exceção
Relatórios de organizações internacionais e investigações jornalísticas ao longo dos últimos anos apontam para a normalização do nepotismo em Angola. Não se trata apenas de casos isolados, mas de um padrão estrutural.
Analistas explicam que, em regimes prolongados, o nepotismo cumpre uma função política: garantir a sobrevivência do sistema, distribuindo recursos e cargos entre círculos familiares e partidários próximos.
É neste contexto que surgem vozes críticas internas.
General Paka: Perfil de um Dissidente Interno
General Paka não é um outsider político. A sua trajetória inscreve-se no coração das Forças Armadas Angolanas e do próprio sistema de poder.
Especialistas em relações civis-militares sublinham que quando a dissidência emerge das forças armadas, o impacto simbólico é elevado, pois rompe com a narrativa de unidade absoluta.
As declarações públicas atribuídas ao General Paka, analisadas por juristas, enquadram-se no exercício da crítica política — um direito consagrado na Constituição angolana — embora o Estado as tenha tratado sob a lógica penal.
A Reação do Estado: Justiça ou Intimidação?
Organizações cívicas angolanas e observadores internacionais têm questionado a seletividade da ação judicial em Angola. Casos envolvendo críticas ao poder tendem a avançar com rapidez, enquanto processos ligados à corrupção estrutural enfrentam lentidão.
Juristas entrevistados por meios independentes sublinham que o uso do direito penal para responder à crítica política é incompatível com padrões democráticos internacionais.
Analistas e Ativistas: O Diagnóstico de uma Crise Moral
Ativistas de direitos humanos afirmam que Angola vive uma crise de confiança entre Estado e cidadãos. Para estes, a perseguição de vozes críticas reforça a perceção de que o regime teme mais a palavra do que a injustiça social.
Um cientista político africano resumiu esta lógica: “O MPLA comporta-se como um pai que confunde autoridade com infalibilidade.”
Daqui emerge a pergunta central:
Até quando o MPLA continuará a destruir politicamente os seus próprios filhos quando estes ousam pensar fora da linha imposta?
Memória, Mortes e Silêncios
Ativistas evocam casos como o de Mfulupinga, frequentemente citado em debates públicos como símbolo de repressão. Outros nomes surgem em discursos cívicos, redes sociais e denúncias familiares.
Do ponto de vista jornalístico rigoroso, importa afirmar: nem todos os casos foram investigados de forma transparente, e muitos permanecem envoltos em versões contraditórias.
Contudo, especialistas em justiça transicional alertam que a ausência de investigação credível alimenta a memória traumática coletiva.
Pesquisas sociopolíticas indicam que o medo é um dos principais mecanismos de controlo em regimes prolongados. O medo não precisa de ser permanente; basta ser exemplar.
Quando figuras públicas são investigadas ou perseguidas após críticas, a mensagem implícita é dirigida aos restantes: o silêncio é mais seguro.
Angola é signatária de convenções internacionais sobre direitos humanos, liberdade de expressão e participação política.
Especialistas em direito internacional sublinham que a soberania estatal não isenta o respeito por esses compromissos.
Apelo às Nações Unidas e à Comunidade Internacional
Diante do exposto, este artigo junta-se às vozes que apelam às Nações Unidas, à União Africana e a organizações internacionais para:
acompanhar a situação do General Paka;
exigir garantias de integridade física e jurídica;
promover missões de observação;
reforçar a proteção de defensores dos direitos humanos em Angola.
Nzinga como Espelho do Presente
Nzinga Mbande ensinou que a submissão nunca garante a paz. A história angolana mostra que o silêncio imposto cobra sempre um preço elevado.
O caso do General Paka não é apenas individual. É sintoma de um sistema em tensão consigo próprio.
A pergunta que permanece não é se a crítica é legítima, mas se Angola está preparada para escutá-la sem recorrer ao medo.
A história observa. O povo recorda. E o futuro exige coragem.


General Paka Contra o Tronco do Poder: A Coragem que Assusta o MPLA
Por Paulo Muhongo
💬 E você, o que pensa?
Estamos perante justiça verdadeira ou apenas o tronco a esmagar os ramos que insistem em crescer?
General Paka Contra o Tronco do Poder: A Coragem que Assusta o MPLA
Descubra a história do General Paka, o oficial que se levantou contra o nepotismo e a repressão do MPLA em Angola. Análises, depoimentos e apelo internacional às Nações Unidas.
POLITICA
1/20/20264 min ler
