No crepúsculo do amanhecer, quando o canto do galo ainda ecoava no ar, os camiões preenchiam os espaços. Outros chegavam ao pôr do sol, rasgando o horizonte sobre as montanhas, adentrando a vastidão das árvores gigantescas e dos arbustos do musseque. Não importava a hora nem o dia: a chegada de um camião provocava sempre um tumulto entre pais, mães e crianças que ali se encontravam, na esperança de mitigar a fome, encontrar um objecto de valor ou, simplesmente, obter uma razão para sorrir e enfrentar as agruras da vida.

Essa comunidade à parte transformara aquele lugar no seu próprio supermercado, onde se buscavam produtos alimentares — frangos, bolos-reis, frutas — tudo já fora do prazo de validade ou em avançado estado de degradação. Alguns encontravam bicicletas de pneus vazios ou aros amassados e dedicavam-se a repará-las. Após inúmeras tentativas, tornavam-se peritos na arte de restaurar objectos antigos e enferrujados, transformando o que fora mera brincadeira de infância num meio de subsistência para si e para os seus familiares.

As dificuldades do presente moldam-nos e preparam-nos para enfrentar o futuro com menos dissabores.

A chama da vela mal começava a ceder à exaustão, enquanto o petróleo dos candeeiros ainda não se tinha esgotado por completo, quando uma escuridão repentina invadia a modesta cabana onde costumávamos reunir-nos — nós, os rapazes inquietos — para conversas repletas de devaneios, longe dos olhares dos adultos que constantemente nos julgavam e condenavam.

Na escuridão, tateávamos em busca daquilo que para nós eram verdadeiros tesouros, mas que para muitos não passavam de meros objectos resgatados dos amontoados de lixo entre os contentores da cidade de Luanda, para depois serem lançados no Calabresa — o lugar onde homens cujas vidas são banhadas pelas riquezas do petróleo e dos diamantes depositavam o que não conseguiam consumir, tamanha era a sua fartura, enquanto os meninos do bairro morriam por falta do essencial.

Uma atmosfera de alegria preenchia os paços quando se aproximavam as festividades, ocasiões que nos permitiam encontrar jogos de luzes para enfeitar as cabanas, ou bases, como lhes chamávamos — construções feitas de papelão ou chapa enferrujada. Essas luzes, por vezes, serviam também para adornar os quartos que partilhávamos com irmãos ou primos. A sua raridade era tamanha que, não poucas vezes, subíamos às árvores ou aos telhados para as contemplar ao longe, no chamado bairro Golf 2 dos Prédios, onde viviam angolanos, portugueses e cubanos com algum poder económico, cujos filhos frequentavam prestigiadas escolas portuguesas ou francesas, no coração da cidade.

Os camponeses fizeram do Calabresa o seu supermercado da esquina. Depois de um dia de trabalho árduo, corriam apressadamente no sonho de encontrar, pelo menos, algumas pernas de frango que, ao chegarem a casa, serviriam de alimento aos filhos e netos, acompanhadas de batata-doce cozida ou assada, regadas com molho de tomate. O hábito de comer o que já estava estragado tornou-se tão frequente que deu origem a um ditado: “Tudo o que não mata, engorda” — expressão que, inexplicavelmente, nos dava coragem para comer e encontrar sabor no que não tinha sabor e já exalava um odor nauseabundo.

Com regularidade, questiono-me: por que milagre permanecíamos vivos e gozávamos de boa saúde? Alguns atribuem esse milagre a uma divindade. É bem possível. Contudo, acredito também no que a ciência nos diz: o meio em que estamos inseridos leva-nos a desenvolver certas imunidades, e algumas bactérias podem, de facto, ser benéficas para o organismo humano. “Deus criou-nos maravilhosamente”, diz o Salmista.

As repercussões manifestam-se ao longo do tempo. A uma simples dor de cabeça ou de barriga, a morte surge à espreita, pronta para carregar as nossas pobres almas para a sepultura, que nos acolhe descontente, visto que não temos muito para nutrir os seus lençóis. A angústia instala-se quando surge a necessidade de procurar assistência médica, pois era frequente vermos muitos dos nossos partirem ainda vivos nos hospitais, sem nunca mais regressarem a casa — e, quando regressavam, era entre tábuas que continham os seus cadáveres. Assim se fechavam as cortinas e se dava por terminada a representação no palco da vida, onde o tempo se revela um actor traiçoeiro.

Não carregávamos outra verdade senão a de que os nossos pais jamais nos dariam algo que nos pudesse fazer mal. Afinal, nenhum pai ou mãe deseja a desgraça do próprio filho. Contudo, quando não se conhece outra realidade além daquela, faz-se o mal, perpetuamente, a quem mais se ama, acreditando-se estar a fazer o melhor possível.

A morte tornou-se tão familiar que já não tínhamos lágrimas para chorar quando os gritos e os soluços ecoavam pelos becos e ruas, anunciando a partida de mais um para o mundo insondável dos mortos. No meio da amargura, apenas soluços escapavam das nossas gargantas; estávamos secos como os rios do Cunene quando a seca assola a região. A Deus não condenávamos, e ao Diabo tão-pouco amaldiçoávamos, pois o mal tornara-se o único vizinho que, com regularidade, nos visitava. Acabámos por aceitá-lo como obra da natureza e como caminhos que éramos obrigados a percorrer sem querer ou consentimento — ainda que já meio mortos.

O Calabresa

Por Paulo Muhongo

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O Calabresa – Capítulo 1 | Memórias de uma Infância

Capítulo 1 do livro Memórias de uma Infância. Uma crónica intensa sobre o Calabresa, no musseque de Luanda, onde a fome, a infância e a sobrevivência moldam a memória e a dignidade humana.

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