Vivemos numa época profundamente paradoxal. Nunca a humanidade dispôs de tantos conhecimentos, de tantas tecnologias, de tantos meios de comunicação e de cooperação. E, no entanto, nunca o sentimento de insegurança, de desconfiança e de caos foi tão intenso. As leis e os acordos internacionais, construídos com dificuldade após as grandes guerras do século XX, são hoje violados sem pudor. Os tratados são assinados para serem ignorados, as instituições para serem contornadas e os princípios apenas invocados quando servem os interesses dos mais poderosos.

O mundo contemporâneo apresenta-se como “avançado”, mas avançado em quê, exatamente? Avançado na justiça, na paz e na dignidade humana? Ou apenas na sofisticação da dominação e da destruição?

A falência do direito internacional

O direito internacional deveria ser o último baluarte contra a barbárie. Foi pensado para impedir que a força bruta voltasse a ditar a ordem mundial. No entanto, diante dos nossos olhos, transformou-se num instrumento seletivo. Uns Estados são sancionados, isolados e condenados; outros, culpados dos mesmos atos, beneficiam de uma impunidade quase total.

Esta incoerência destruiu a credibilidade do sistema internacional. Quando uma regra não se aplica a todos, deixa de ser uma regra e torna-se uma arma política. E quando a justiça é seletiva, deixa de proteger os fracos e passa a legitimar os fortes.

Assim, o mundo desliza perigosamente para uma realidade antiga e brutal: já não é o direito que limita a força, mas a força que redefine o direito.

O mito do diálogo permanente

Fala-se incessantemente de diálogo, de negociações, de diplomacia. Multiplicam-se cimeiras, comunicados e apelos à moderação. Mas este teatro diplomático esconde uma verdade mais cínica: o diálogo serve muitas vezes apenas para ganhar tempo antes do uso da força.

Hoje, o peso de um argumento vale menos do que o alcance de um míssil. A questão central das relações internacionais deixou de ser “quem tem razão?” para passar a ser “quem tem capacidade de destruir e sobreviver?”. A dissuasão nuclear voltou a ser a linguagem última das potências — uma linguagem silenciosa, aterradora, mas universalmente compreendida.

A paz já não assenta na confiança, mas no medo.

Tecnologia: progresso ou alienação?

O progresso tecnológico é frequentemente apresentado como prova suprema da superioridade da nossa civilização. No entanto, nunca a tecnologia foi tão ambígua. Aproxima e isola, informa e manipula, cura e mata.

As crianças crescem num universo digital onde a fronteira entre o real e o irreal se esbate. Os algoritmos moldam opiniões, os ecrãs substituem o pensamento, a velocidade elimina a reflexão. A verdade cede lugar à emoção, e a complexidade é esmagada pelo slogan.

Paralelamente, estas mesmas tecnologias são usadas para aperfeiçoar armas, vigiar populações e automatizar a morte. Drones decidem à distância quem vive e quem morre. Sistemas de inteligência artificial entram nas estratégias militares. O progresso técnico, desligado de qualquer ética, torna-se uma ameaça existencial.

A militarização generalizada do mundo

Perante este caos, cada povo é forçado a preparar-se militarmente como nunca antes. Não por vontade, mas por sobrevivência. A segurança coletiva falhou. A ingenuidade tornou-se um luxo que nenhum Estado pode permitir-se.

Os orçamentos militares explodem, as alianças endurecem, os blocos reorganizam-se. O mundo volta a ser um tabuleiro de xadrez onde cada movimento é calculado em termos de poder. Esta corrida aos armamentos não cria segurança; cria tensão permanente.

Entrámos numa era em que a paz deixou de ser um objetivo duradouro e passou a ser apenas um intervalo entre dois conflitos.

África e a condenação da divisão

Neste mundo brutal, África paga um preço particularmente elevado. Desde sempre, o continente foi enfraquecido pela sua fragmentação. Fronteiras artificiais, herdadas da colonização, dividiram povos, culturas e territórios, impedindo o surgimento de uma verdadeira potência continental.

Esta divisão tornou África vulnerável a ingerências externas. Incapaz de falar a uma só voz, o continente é frequentemente reduzido a palco de confrontos indiretos entre potências estrangeiras. Os seus recursos são cobiçados, os seus conflitos explorados, os seus dirigentes por vezes instrumentalizados.

Enquanto África permanecer dividida em Estados frágeis, dependentes económica, tecnológica e militarmente, continuará marginalizada na ordem mundial.

A ilusão da independência formal

Muitos países africanos são formalmente independentes, mas a sua soberania real é limitada. Dependência monetária, energética, alimentar, tecnológica e securitária constituem correntes invisíveis. Num mundo regido pela força, um Estado que não controla a sua defesa, a sua economia e a sua narrativa está condenado a sofrer decisões alheias.

A soberania não se proclama: constrói-se.

A Europa sob tutela: o abandono estratégico

Também a Europa enfrenta o seu próprio declínio estratégico. Após a Segunda Guerra Mundial, a dependência em relação aos Estados Unidos podia justificar-se. Mas o temporário tornou-se permanente. Hoje, a segurança europeia continua a assentar essencialmente no poder militar americano.

Esta tutela não foi imposta: foi aceite. A Europa transformou-se num gigante económico sem espinha dorsal política, num mercado poderoso mas estrategicamente impotente. Alinha frequentemente com decisões tomadas fora do continente, mesmo quando estas contrariam os seus próprios interesses.

Pode uma Europa que não decide a sua defesa, a sua diplomacia e o seu destino chamar-se soberana?

A Europa de Charles de Gaulle: uma visão esquecida

Houve, porém, outra visão. A de Charles de Gaulle. Uma Europa independente, capaz de dialogar com todas as potências sem se submeter a nenhuma. Para de Gaulle, a aliança não significava obediência. Ao retirar a França do comando integrado da NATO em 1966, deixou claro que a dignidade política exige autonomia estratégica.

Esta visão não era anti-americana nem nostálgica. Era realista. Partia de um princípio simples: no mundo dos Estados, não existem amizades eternas, apenas interesses duradouros.

O mundo multipolar e a oportunidade perdida

O mundo atual é multipolar. China, Rússia, potências regionais e blocos emergentes redefinem o equilíbrio global. A Europa poderia ter sido um polo autónomo, uma força de equilíbrio. Em vez disso, escolheu o seguidismo, a reação, a prudência excessiva.

Perdeu a iniciativa e, com ela, parte da sua credibilidade.

Conclusão: o momento da escolha ou o momento do renúncia

Já não há espaço para ambiguidades. O mundo entra numa era de confrontação duradoura. Continuar a acreditar que declarações morais substituem o poder real é uma perigosa ilusão.

A Europa não pode continuar a proclamar valores enquanto terceiriza a sua soberania. Não se pode ser dependente e soberano ao mesmo tempo. Regressar ao espírito de Charles de Gaulle não é nostalgia: é necessidade histórica.

Os continentes que recusam existir por si próprios acabam sempre por ser governados por outros. A história não absolve os renunciamentos disfarçados de virtude.

Ou a Europa assume a sua autonomia, com todos os riscos que isso implica, ou aceita definitivamente o papel de território subordinado num mundo governado pela força.

Num mundo regido pela lei do mais forte, recusar tornar-se forte é aceitar ser dominado.

O tempo dos discursos terminou. O tempo das escolhas irreversíveis começou.

O Regresso da Lei do Mais Forte: Quando o Direito Cede à Força

Por Paulo Muhongo

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Estamos realmente a viver num mundo governado pelo direito ou apenas na sombra de poderes que esmagam os mais fracos?

O Regresso da Lei do Mais Forte: Quando o Direito Cede à Força

Um olhar profundo sobre o colapso da ordem internacional, a ascensão da força sobre o direito, a dependência estratégica da Europa e a fragmentação da África. Uma análise crítica do mundo contemporâneo e da necessidade de soberania.

POLITICA

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