UM BRINDE À BELEZA DE ESTAR VIVO

Uma crónica íntima sobre um entardecer na Graça, entre cervejas, olhares e reflexões sobre a vida, o amor e a liberdade. Num cenário onde Lisboa se revela em luz e silêncio, nasce um pensamento simples, mas profundo: viver é sentir, observar e questionar, mesmo quando não temos todas as respostas.

Paulo Muhongo — Escritor e Poeta

São quase seis da tarde. Estou sentado no Secret Garden. Partilho a mesa com um dos sócios desta tão bela esplanada, o Marcio, um brasileiro, um bom homem.

Temos os dois uma cerveja na mão, da mesma marca, mas com gostos diferentes.

Depois de brindarmos à vida, deixamos o olhar perder-se nas raparigas que passam por aqui, neste canto turístico da Graça, mesmo ao lado do miradouro da Nossa Senhora do Monte. Há de tudo: silhuetas finas e luminosas de raparigas jovens, mulheres de curvas generosas, e outras que nem sabemos bem como definir, como se escapassem às palavras.

Comovidos pelo momento presente, olhamo-nos e dizemos simplesmente:
«Que bom que é estar vivo… Que boa que é a vida e as mulheres!»

Não julgamos. Cada um tem as suas razões. Mas não conseguimos deixar de nos interrogar sobre aqueles que põem fim à própria vida, ou sobre aqueles que escolhem amar de outra forma, longe daquilo que conseguimos compreender.

Há algo de simples e de bruto no facto de amar uma mulher, de sentir a sua presença, o seu calor, essa proximidade física onde tudo se torna verdadeiro, onde os corpos falam mais do que as palavras.

E, no meio desta celebração da vida e do desejo, surge uma pergunta entre nós, quase naturalmente:
como é que nós não conseguimos construir uma relação verdadeira, formar uma família, ou até simplesmente manter uma mulher ao nosso lado?

A resposta vem depressa, como uma evidência um pouco amarga: é simples… gostamos demasiado de nós próprios.

Porque amar o outro é sempre renunciar a uma parte de nós. É aceitar limites, é sair do centro, é pensar primeiro nas necessidades do outro antes das nossas.

Mas nós somos demasiado egoístas para isso. Queremos uma vida sem constrangimentos, sem correntes, sem nada que nos prenda.

Este é o nosso problema.

Já passámos dos trinta, e no entanto continuamos na mesma: egoístas, por vezes até cegos em relação ao que isso realmente significa.

E depois há esta ideia estranha, quase sufocante, de ter de ficar com uma só mulher para toda a vida… quando existem milhões de mulheres neste mundo vasto, algumas sozinhas, algumas perdidas, outras à espera de alguma coisa — ou de alguém.

Para mim, os homens mais corajosos, mais persistentes, são aqueles que vivem com uma só mulher e que continuam, apesar de tudo, a ficar. Dez, vinte, trinta anos. Sem fugir. Sem se trair.

A minha relação mais longa, até hoje, durou seis meses. E mesmo assim… os últimos dois meses foram puro sofrimento. Eu queria livrar-me dela, mas não tinha razões válidas. Então esperei. Pacientemente. Como se o tempo fosse decidir por mim.

E, no fim, saí dessa prisão.

Tenho dificuldade em dizer, sem uma razão sólida: «Acabou. Já não te quero.»

A vida já é suficientemente complicada, suficientemente dura… e deixar alguém sem explicação é algo que me faz mal. Mesmo quando as minhas razões não se aguentam verdadeiramente. Mesmo quando não são fortes o bastante para justificar um fim.

A noite começa a cair, o céu tinge-se entre o amarelo e o vermelho. Apressamo-nos todos para ver, mais uma vez, este belo pôr do sol. Não nos cansamos, porque todos os dias há um novo detalhe, uma nova sensação.

Acredito que está aí o segredo para viver tanto tempo com uma mulher: olhá-la todos os dias de uma forma diferente, deixar-nos perder nela e encontrar, sempre, novas maravilhas dentro dela.

Como filho da casa, quase tudo me é permitido. Então ligo-me à aparelhagem e ponho jazz.

A música ao fundo, as vozes que falam em todas as línguas, pessoas de todo o mundo que se cruzam aqui. Ninguém precisa de saber quem faz o quê, quem conseguiu ou não conseguiu nada. Somos todos iguais.

Partilhamos a mesma sensação. Esquecemo-nos de que existimos. Sentamo-nos, olhamos o céu e bebemos uma cerveja, e todos os nossos problemas parecem desaparecer.

💬 E você, o que pensa?

Estamos realmente à procura de alguém para amar… ou apenas a evitar tudo aquilo que nos obriga a deixar de ser apenas nós próprios?

Um Brinde à Beleza de Estar Vivo | Crónica sobre Lisboa, Amor e Liberdade

Crónica sobre Lisboa, no bairro da Graça, onde entre uma cerveja partilhada no Secret Garden e o pôr do sol sobre a cidade, nasce uma reflexão profunda sobre o amor, a liberdade e o egoísmo nas relações modernas.

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4/30/20263 min ler