Viver ou ser visto a viver? A necessidade de justificar cada momento

Uma reflexão sobre o ego moderno, a validação social e o silêncio interior numa sociedade orientada para a performance

Paulo Muhongo — Escritor e Poeta

Há uma forma estranha de viver que se tornou silenciosamente comum.

Já não basta viver.

É preciso que a vida seja visível enquanto acontece.

Como se existir, por si só, já não tivesse densidade suficiente sem testemunhas.

E, nesse gesto subtil, quase invisível, a vida começa a dividir-se em duas camadas: aquilo que se vive e aquilo que se mostra.

Nem sempre coincidem.

No metro, vi um homem a tirar uma fotografia a si mesmo. Não havia nada de especial no momento. Nem luz, nem expressão, nem contexto que justificasse o gesto.

Ele tirou a fotografia, olhou, apagou.
Tirou outra. Apagou novamente.

À terceira tentativa, guardou o telemóvel.

E ficou imóvel.

Por breves segundos, parecia alguém que tinha sido devolvido a si próprio — sem imagem, sem filtro, sem necessidade de tradução.

Essa imagem ficou comigo.

Mas não foi a única.

Dias depois, num café quase vazio, reparei numa mulher sozinha.

Estava sentada com o telemóvel à frente, mas não o usava de forma activa. Olhava para o ecrã como quem espera uma resposta que nunca chega.

De vez em quando, desbloqueava, escrevia algo… e apagava.

Não havia pressa visível.

Mas havia hesitação.

Uma hesitação constante, quase física, como se qualquer gesto tivesse de ser previamente validado antes de existir plenamente.

E nesse pequeno movimento repetido havia algo desconfortável:

não era o mundo que a prendia.

Era a necessidade de aprovação antes da própria acção.

Há uma forma de vida que hoje se tornou comum: a vida que precisa de ser validada enquanto acontece.

E isso cria uma tensão silenciosa.

Porque já não vivemos apenas o momento.

Vivemos também a sua avaliação.

O sociólogo Thorstein Veblen já tinha observado que o consumo comunica estatuto e posição.

Mas hoje já não se trata apenas de consumo.

Trata-se de presença.

Trata-se de existência tornada visível.

E talvez o mais inquietante não seja isso.

É o facto de já não sabermos exactamente quando estamos a viver — e quando estamos a observar-nos a viver.

O filósofo Jean-Paul Sartre dizia que o olhar do outro transforma a forma como nos vemos.

Mas hoje esse olhar deixou de ser um momento.

Tornou-se um estado permanente.

Mesmo quando ninguém está presente, uma parte de nós comporta-se como se estivesse a ser observada.

O psiquiatra Carl Jung chamou “persona” à máscara social.

Mas talvez hoje o problema já não seja a máscara.

É o facto de já não sabermos quando a estamos a usar.

Ou se ainda existe um rosto por baixo dela.

E isso cria uma fadiga que não é visível.

Não é dramática.

É lenta.

Quase imperceptível.

Mas constante.

Como uma tensão de fundo que nunca desaparece totalmente.

O psiquiatra Viktor Frankl dizia que o ser humano não suporta a ausência de sentido.

E talvez seja por isso que tentamos preencher tudo: imagens, respostas, movimentos, explicações.

Qualquer coisa que impeça o silêncio de se tornar demasiado claro.

Mas o silêncio não desaparece.

Ele apenas recua.

E espera.

Há uma pressa subtil que atravessa tudo isto.

Responder rápido.
Decidir rápido.
Avançar rápido.

Como se parar fosse uma forma de falhar.

Mas há momentos em que essa lógica se suspende.

Pequenos instantes que não pedem nada em troca.

Um olhar distraído pela janela.
Uma conversa sem objectivo.
Um tempo morto que não é preenchido imediatamente.

Esses momentos não produzem nada.

E talvez por isso sejam tão raros.

Os italianos chamam-lhe dolce far niente.

O doce fazer nada.

Mas talvez não seja exactamente “nada”.

Talvez seja apenas viver sem necessidade de justificar o que se está a viver.

O apego entra aqui de forma silenciosa.

Apego ao que se tem.
Apego ao que se mostra.
Apego à imagem que se construiu de si próprio.

E quanto maior o apego, maior o medo de perder.

E quanto maior o medo, menor a liberdade.

O Buda ensinava que o apego está na origem do sofrimento.

Não porque o mundo seja problema.

Mas porque a dependência transforma tudo em instabilidade interior.

E talvez o ponto mais subtil de tudo isto seja este:

não é apenas o mundo que exige performance.

Somos nós que começamos a exigi-la de nós próprios.

No fundo, há uma vida que se vai tornando cada vez mais explicável.

E outra que vai ficando cada vez menos vivida.

Eu considero-me feliz.

Mas essa felicidade não é um estado fixo.

É uma prática silenciosa.

Uma forma de vigilância interior.

Um alinhamento que precisa de ser constantemente reencontrado.

Sou um homem livre na medida em que não dependo constantemente da validação externa para existir em equilíbrio comigo mesmo.

Mas isso não elimina o conflito.

Apenas o torna visível.

Nada é permanente.

Nem as pessoas.
Nem os momentos.
Nem as versões de nós próprios.

E essa impermanência não é leve.

Mas é verdadeira.

Talvez o mais difícil hoje não seja viver.

Mas viver sem necessidade de justificar continuamente a vida.

Talvez o problema não seja viver.

Talvez seja precisar que a vida esteja sempre a ser vista para acreditar que ela está realmente a acontecer.

💬 E você, o que pensa?

Estamos realmente a viver a nossa vida… ou apenas a tentar garantir que ela seja vista, reconhecida e validada por alguém?

Viver ou ser visto a viver? A necessidade de justificar cada momento

Será que ainda vivemos a nossa vida… ou apenas a necessidade de justificar cada momento, de o mostrar e validar, na era das redes sociais e da exposição permanente?

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5/5/20264 min ler